47- O que eu deveria esperar


Os olhos verdes apáticos encaravam semiabertos o chão sujo. Um delírio viciante rodava seus miolos, buscando algum meio de escapar, mas era sempre engolido de volta, já que as mãos – habilidosas – sabiam bem a hora de levar a garrafa de álcool aos lábios secos.

Você não erguia o olhar. Não notava nada ao seu redor. Ou fingia não notar, talvez negligenciasse tudo por saber que não era capaz de fazer melhor.

O meu boletim estava jogado de lado. Tudo o que eu me esforçara para tirar estava de lado. Nada que eu fazia lhe importava, mesmo que eu desse meu melhor a cada segundo para lhe deixar feliz. Nada.

Mas o que esperar? Seus olhos nunca me olharam como deveriam. Seus braços nunca me envolveram como deveriam. Sua boca nunca me beijou como deveria. Você nunca foi a pessoa que deveria ser.

O ar fétido era inalado e expirado vagarosamente pelas minhas narinas infantis. Meu coração gritava, mas as lágrimas ficaram apenas em sua linha.

Você meio sentada, meio jogada, fingia que não me via. Uma baba repulsiva descia pelo queixo caído. Apenas demonstrando seu descaso. Ao seu redor, as sobras de sua loucura escorriam pelas bocas úmidas de garrafas quebradas.

Os olhos mortos. O corpo inerte. A mente vazia. O que esperar? Apenas catei minhas coisas. Suspirei ruidosamente (e mesmo assim você não reagiu). Subi as escadas barulhentas. Tranquei-me no quarto e, jogada na cama, fiquei aspirando a poeira da falta de cuidado e estudando minhas únicas amigas: as manchas de mofo nas paredes.

1 comentários :

  1. Gostei muito de ter estado aqui e da forma sutil que abordou o tema.

    Levarei essa história , para uma das turmas que dou aula.

    Abraço.

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