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Mulher, a pior criatura de todas

Crescendo como uma pessoa do gênero feminino, passei minha vida inteira escutando muitas coisas que culminaram na afirmação do título. Mulher, a pior criatura de todas. Você pode estar se perguntando, de onde essa pessoa tirou isso? Como mulher pode ser a pior criatura de todas? Pois bem, junte-se a mim nessa viagem pelo senso comum e no final provavelmente irá ver.
  
Tudo começa na bíblia, o homem foi criado e, para não ficar sozinho no paraisão, logo Deus tirou uma costela e fez dela a fêmea para ele. Já começou com uma entrada triunfal a mulher: nasceu de um pedaço de osso aparentemente inútil (se fosse, sei lá, do crânio, do fêmur, da coluna vertebral… Nah, foi de um osso que as barbies humanas estão a todo momento tirando). Foi nomeada pelo querido Adão como Eva. Eva é seduzida pela serpente (que também representa uma figura feminina, que maravilha), e fez Adão provar do fruto proibido junto com ela e serem expulsos do paraíso.

Mas claro que a mente problemática dessa interessantíssima criatura chamada mulher não acabou ai. Pulando muito no tempo, para provas mais atuais (já que não quero ter que escrever um ensaio sobre isso), vemos que a mulher é uma criatura cheias de dualidades problemáticas.

Como assim?

Por exemplo, irei dizer sobre a mulher fraca e a mulher "forte".

A mulher fraca: precisa da proteção do homem, seja do pai, do irmão, do esposo (o que é provado biologicamente, claro, que a mulher é mais fraca e não sabe se defender sozinha); não sabe fazer suas próprias escolhas e não sabe o que quer da vida (“não” significa “sim”?).

A mulher “forte”: forte aqui está sendo empregado em diversos sentidos e pode até mesmo ser encontrado ou não na mulher fraca, pode ser sinônimo de vadia também, porque muita são vadias mesmo. É aquela mulher que gosta de dar muito, dá o tempo todo pra quem ela quiser dar. Ou aquela mulher que não sabe seu lugar e sempre fica questionando os homens e os valores claramente decididos na sociedade. É aquela mulher que cria seus filhos sozinha e nem faz ideia de onde está o marido/omi porque não soube segurá-lo. Etc. Em suma, as vadias da situação.

Pior ainda, a criatura chamada mulher criou algo chamada feminismo. Basicamente, feminismo significa: luta pela igualdade de gêneros. É muita loucura uma criatura que saiu de um osso aparentemente inútil querer igualdade de gênero, mas ok, elas podem querer o que quiserem desde que fiquem quietas no cantinho enquanto os homens cuidam da situação.

Só que esse feminismo fez com que as mulheres saíssem de seus lugares bem demarcados dentro da sociedade e buscassem coisas novas. Exemplo: a mulher não está mais em casa para fazer o papá do marido e das crianças, porque está na rua trabalhando ou rebolando até o chão. A mulher não quer mais que o carinha do transporte público passe a mão nela (ou passe outra coisa) – como sabemos, o homem está no direito dele, é de conhecimento universal que seus instintos animalescos não podem ser controlados e é função da mulher satisfazê-lo. Ou a mulher que não quer satisfazer os desejos do esposo – e ele, tadinho, tem que forçá-la a seguir seu papel de perfeita esposa (colocá-la em seu lugar).

E não só o feminismo que faz com que a criatura chamada mulher se sinta poderosa. Outras criaturas, como negros e o pessoal lgbtqia, começaram a achar que também possuem o direito de serem ouvidos. E mulheres dentro desses movimentos muitas vezes se incluem no feminismo também e ai que a coisa fica uma loucura.

Pulando da água para o achocolatado, quero colocar aqui algumas afirmações ou observações que vão fazer você concordar de vez que a mulher é a pior criatura. A lista é grande, então você não vai ficar sem exemplos. Ok? Vamos lá?
  • Mulher saiu de roupa curta na rua. Foi estuprada. A culpa é dela por estar em lugar inadequado, com a roupa inadequada e na hora inadequada. O homem, como é de conhecimento universal, estava apenas extravasando suas pulsões naturais.
  • Menina amadurece mais cedo, então ok namorar rapaz mais velho; então ok um rapaz mais velho tratar uma criança (tem certeza que é criança? Os jovens hoje em dia…) de forma sexual. Se a menina aceitar… iiiish, essa ai tava consentindo mesmo.
  • Mulher é espancada pelo esposo. Ela não queria mais ficar em um relacionamento que não a fizesse feliz. Ele apenas usou seu poder natural para mostrar que quem manda ali é ele.
  • Mulher não quer casar, prefere ficar sozinha ou sair sem compromisso ou não se envolver tanto: Puta.
  • Mulher falando sobre mulher de alguém que aquela esta afim: vadia, puta, piranha, rodada...
  • Mulher que gosta de sexo sem compromisso: vadia, puta...
  • Mulher não quer ter filhos, fica só no bem-bom: Puta.
  • Mulher em um cargo alto ou bom emprego: Dormiu com alguém para conseguir isso.
  • Mulher negra: nasceu para ser objeto sexual ou para ser empregada.
  • Mulher loira: burra
  • Mulher ruiva: será que lá embaixo também é ruivinho?
  • Mulher pobre com muitos filhos: só quer ajuda do governo.
  • Mulher rica: superficial.
  • Mulher que não passa maquiagem/ se "cuida" fisicamente: largada.
  • Mulher que se veste de maneira "sexy": está afim de alguém.
  • Mulher bonita/ “gostosa”: superficial/puta
  • Amante do marido de alguém: puta, vadia, sem vergonha… (tadinho do marido por ter sido seduzido por essa criatura).
  • Quando se trata de um gay: aff, quer ser mulherzinha. Pode ser gay, mas não pode ser afeminado.
  • Alguns gays falando: eca, vagina é nojento.
  • Sobre as trans: está querendo enganar os homens.
  • Se é lésbica: não tá faltando alguma coisa? Isso é porque nenhum homem pegou de jeito.
  • Mulher gorda: não cuida do corpo, não é saudável…
  • Mulher (muito?) magra: neurótica, não é saudável…
  • Mulher passando na rua: Gostosa, delicia, ô lá em casa. (E a mulher não pode responder porque o papel do homem é cantar o pedaço de carne ;))
  • Mulher traída: não conseguiu segurar o esposo.
  • Mulher traiu: vadia, já tinha um em casa, por que foi atrás de mais?
  • Mulher velha com homem novo: Onde já se viu isso, essa velhota gostar dos novinhos?...
  • Mulher nova com homem velho: essa ai tá atrás da fortuna.
  • Mulher bebeu em festa/casa de amigo/com homens: essa pediu.
  • Mulher não sai de casa/não gosta de festas/não quer namorar/não quer sexo: santinha, chata, sem graça.
  • Mulher no mundo pop se for bonita: não precisa fazer a coisa bem, todo mundo só vai tá olhando pra outras coisas mesmo (e vai virar chacota por não fazer a coisa bem também, mas pelo menos vai ser famosa :3).
  • Se for feia: ai tem que ser muito boa para emplacar, ou muito ruim para virar chacota (bem, vai virar chacota de qualquer jeito).
  • Mulher importante que não segue padrão de beleza (ou praticamente qualquer outra dessas criaturas): será que transa? Deixou de pintar o cabelo, tá ficando desleixada; Engordou, ixi, assim não dá.
  • Mulher que se maquia/faz plástica para parecer mais nova: o que é isso? Tem que deixar a idade chegar… Não adianta ser quem não é. Tudo tem sua hora.
  • Mulher que deixa a idade “aparecer”: que horror, nem cuida da aparência.
  • Mulher quer abortar: assassina.
  • Mulher não tem condições, mas mesmo assim tem o filho: como vai criar ele? Se fechasse as pernas...
  • Mulher que doa/abandona o filho por não ter condições: que tipo de mãe é você? Que pessoa horrível. Na hora do sexo não pensa nisso...
  • Xingamento comum: filh@ da puta. 

Isso são apenas algumas coisas que sabemos sobre mulheres. Resumo da ópera: mulheres existem para serem objetos dos homens e não adianta reclamar ;)


Agora minha resposta para o título: Mulher, a pior criatura de todas por passar por tanta coisa e ainda continuar foda. Quem sobrevive a isso, né machos?

Deixando a ironia de lado, venho com esse texto mostrar minha cada vez mais crescente indignação sobre o mundo que vivemos. Sei bem que muitas pessoas estão evoluindo, mas ainda temos um longo e pedregoso caminho pela frente.

Depois de ler, espero que tenha percebido o porque da ironia (queria mostrar sob o ponto de vista de alguém que aceita tudo isso), além de ter visto e entendido pelo que a mulher passa todo dia. Claro que existem incontáveis coisas que eu nunca iria conseguir colocar aqui por inteiro. Claro que existem incontáveis minorias que eu poderia ter abordado aqui também. Mas preferi ficar nesses pontos e com esse grupo específico. 

O texto é simbólico para uma indignação gritante. E faço um apelo aqui no final: Mulheres (homens também, mas acho que principalmente as mulheres, já que uma GRANDE parte delas se identifica e reproduz o machismo) não aceitem serem submissas. Não repitam o que passou de boca em boca sem pensar. Não passem para seus filhos, conhecidos ou qualquer pessoa um discurso que transforma vocês mulheres em objetos ou criaturas reprimidas.

E para quem acha que eu nasci pra servir omi ou uma sociedade que reproduz discurso machista:


Só isso que queria falar mesmo. Beijos e um cheiro! Nos vemos em breve.
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Apenas Sorri


Eu estava sentada no banco detrás vendo a paisagem passar rapidamente pela janela, formando um borrão nostálgico. Escutava o som que as outras pessoas faziam - toda a animação, todas as risadas, mas era tudo muito abstrato para que eu entendesse. Eu não queria... bem... entender, queria ficar com a arte multicolor da janela do carro.

Sentia-me perdida no meio das cores passantes, mas não mais perdida do que em todos os outros dias da minha vida.

Nós estávamos saindo. Iríamos nos divertir. Aproveitar a juventude. Iríamos ficar juntos e rir um pouco.

Mas lá estava eu. Havia me forçado a levantar da cama e me arrumar para o encontro com os velhos amigos. Havia dito que eu conseguiria fazer aquilo, que não seria tão doloroso. Havia dito que eles me faziam bem.

Mas ninguém sabia me fazer bem, nem eu mesma sabia. Sentia como se eu estivesse procurando algo, um algo inexplicável, uma sensação etérea. Queria me sentir completa. Queria que os outros me fizessem ver que estava completa. Mas não estava. Eu apenas havia me forçado. 

E estava vendo a pintura da janela. E uma mão me tocou. E eu virei. E eu sorri, como se tudo estivesse perfeito...

Apenas sorri. Perfeito.
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Notícias


O rapaz se sentou em uma das cadeiras do barbeiro, esperando para que o mesmo senhor de sempre, baixinho de cabelos grisalhos, fosse atendê-lo. A multidão ali dentro era formada por apenas seis pessoas: dois barbeiros e quatro clientes; o suficiente para deixar o pequeno quadradinho antigo cheio. 

– Vai querer o de sempre? – Indagou o senhor. O rapaz se limitou a concordar com a cabeça.

Os outros clientes discutiam sobre o cotidiano e o rapaz rapidamente se integrou à conversa. “Vocês viram aquela babá que seduziu o jogador?” Comentou um, segurando o jornal aberto em uma página sem importância. 

– Vagabunda. – Respondeu o outro. – Coitada da mulher dele.

– Viram que o país tá em crise? Que horrível! Eu disse que o povo não ia votar direito. Porque eu, eu vote no outro candidato. – Objetivou mais um.

Conversa foi e voltou, foi e voltou, até se tornar um contente falatório entre todos ali. Conversaram sobre o preço das moedas internacionais, do combustível, do docinho da loja da esquina. Conversaram sobre a época de seca, as crianças que saiam da escola, as mulheres que passavam na frente. Conversaram sobre suas famílias. 

– Minha esposa passa o dia inteiro fora e quando chega nem tem tempo mais para mim. – Disse um.

– A minha é desse jeito. – Respondeu outro.

– Pois vocês tem é que ficar de olho na mulher de vocês. – Aconselhou o terceiro.

– Já a minha é diferente. – O rapaz comentou, empertigando-se na cadeira e examinando o cabelo recém-cortado e a barba feita. – Ela fica em casa e sempre está lá para mim. Nós estamos até pensando em ter filhos, ela ainda está um pouco receosa, claro, mas acho que logo teremos um ou dois.

– Você tem sorte. – Respondeu o primeiro, voltando a caminhar os olhos pelo jornal. – Que tristeza, a moça sequestrada ainda não foi encontrada.

– Essa ai já tá morta. – Comentou outro.

– Com certeza. Faz o quê? Três semanas? Já bateu as botas essa ai.

– Posso ficar com esse jornal? – Pediu o rapaz. O homem não pensou duas vezes e o entregou. – Foi um prazer conversar com os senhores. – Despediu-se o rapaz. Pagou e se foi pela ruela.

Ia cantarolando uma música pop que havia se tornado tendência. Estava animado, mais animado ainda para chegar em casa depois de um dia de trabalho e descansar. Virou umas ruas, passou por inúmeras casas até parar à frente de uma empressada entre outras duas bem maiores.

Rodou a chave. Entrou sem se importar com o barulho que fazia. Jogou o casaco sobre o sofá e anunciou alto “querida, cheguei!”. 

Subiu para o primeiro andar e abriu a porta do quarto. Jogou o jornal sobre a cama e sorriu para a mulher sentada na cadeira longe da janela. 

Ela apenas subiu os olhos molhados. Seu rosto pálido refletia a pouca luz que escapava pelas cortinas. Tentava falar, mas sua boca estava amordaçada. Tentava se mover, mas seus pés e pulsos estavam presos fortemente à cadeira. 

No jornal em cima da cama, a foto alegre de uma jovem de 16 anos, sequestrada a três semanas.
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Sempre acaba me alcançando


Meus pés caminham rápidos pela vereda. Eles fogem do mundo às minhas costas. Ele está ali também. Eu consigo ouvir seus passos, as folhas secas partem-se sob seus imensos sapatos. Ele não tem pressa, normalmente sempre acaba me alcançando. Mas não daquela vez. Daquela vez eu seria mais rápida. Eu sinto sua respiração presa à minha nuca. Sinto o calor de seus lábios. Não! Não daquela vez. Venço a tentação de me virar e lhe ver. Acelero. Chegando em casa, esconderia-me lá dentro, ele não poderia fazer nada. A maçaneta da casinha de campo está a centímetros. Ergo a mão e me refugio lá dentro. Rodo a chave. Abaixo o capuz vermelho. Não tenho coragem nem de lhe ver pela janelinha. Ele não força a porta, eu sabia que não faria isso. Mas sei que ainda está lá. Sei que sussurra. Consigo ouvi-lo. E sussurra, incendiando meu corpo. Consigo ouvi-lo. E, como sempre, minha mão sobe novamente para a maçaneta. Rodo a chave. 

Todos dizem que ninguém consegue fugir dele. E ele... Sempre acaba me alcançando. 
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Seja santinha, seja vadia


Ele já te falou inúmeras vezes com quantas garotas transou. Já te descreveu todos os fetiches e sonhos. E você lá calada, a boca na xícara de chá. Ele te romanceava, pensava que era mais uma "garotinha". Mais uma "santinha" para sua lista. E você lá. Quieta. 

"E você? Com quantos homens já transou?" Perguntou finalmente, com um ar sarcástico, já prevendo a resposta. Mas a resposta não era a esperada e você não se calou só por isso. "Com quase toda a cidade. E gostei muito."

Tudo mudou a partir dali. Você deixou de ser a "garotinha" para ser a "vadizinha", a que "não se dá ao respeito". 

Porque todo mundo sabe, mulher boa é a mulher que fica na cozinha, cuidando do almoço e dos cinco filhos; esperando o maridão chegar, sentar-se na poltrona e jogar os sapatos para cima, para lhe entregar uma garrafa gelada de cerveja. Mesmo sonhando sair dali, não podendo, porque é para isso que as mulheres nasceram. 

Ele se enraivece por ser só mais um em sua lista, enquanto você era só mais uma na lista dele. Ele espalha para a cidade e sua fama chega longe. E você? Sempre que te perguntavam, a resposta era a mesma: Com quase toda a cidade. E gostei muito. 

Porque mulher tem que se dar ao respeito /o respeito que ela quiser/. Seja "Santinha". Seja "Vadia".


[Cada uma tem o direito de escolher o melhor para a sua vida. Seja "Santinha". Seja "Vadia". Ou seja as duas. Ou seja nenhuma. Ou cuide de seus filhos em casa. Ou passe o dia fora trabalhando. Dando. Recebendo. Comendo. Lendo. No shopping. Na praia. Na biblioteca. No bar... Seja feliz, sem se importar com o que os outros querem que você faça ou o que irão pensar.]
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Quem sabe você não é mais aquela garotinha


Quem sabe você não é mais aquela garotinha. 

Sentada no ponto de ônibus, completamente sozinha. Os dedos inquietos enrolando o cabelo escuro. As pernas esfregando, uma na outra, as meias três quartos. Seus lábios se movendo timidamente, com o mesmo ar enérgico de uma reza. Tudo parecia muito diferente de anos atrás. Mas seu rosto angelical ainda era o mesmo. O mesmo ar infantil. Como se seu mundo se mantivesse alheio às verdades. 

Quem sabe você não é mais aquela garotinha. Que corria com os joelhos ralados e se sujava junto com todos os meninos. Com o cabelo sempre preso em um rabo de cavalo e os óculos tortos escorregando pelo nariz fino. 

Agora sua alma poetiza tinha os olhos distantes, sonhadores. O corpo ainda vazio do prazer de amar, mas não estava esperando por um príncipe, cavaleiro ou bardo. Tão diferente da garotinha que conheci há anos. Os lábios naturalmente rosados, movendo-se sedutoramente. Carregando um livro clássico sob o braço e escutando alguma música nos fones discretos. E pensar que você ainda repetia a velha frase: "Deveria parar de perder tempo sonhando". Mas sonhar era o que mais fazia. 

Não era mais uma criança como eu costumava vê-la. Havia se tornado uma mulher. E eu só agora me dando conta do quanto cresceu. 

Você não era mais aquela garotinha. 


[Baseado em "Malandragem" - Cazuza e Frejat / Cássia Eller]
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Nosso Amor


– OLHO PASTEL! OLHO PASTEL!

– BRIGADEIRO UM REAL!

Sua cabeça mantinha-se baixa enquanto subia as escadinhas que a levaria para longe de tudo aquilo que conhecia. Meus olhos não se despregavam de você, mesmo eu sabendo que nem ao menos sabia que eu havia corrido praticamente a cidade inteira para me despedir. 

– CHINELAS! SAPATILHA! TÊNIS! TUDO PELO MENÓ PREÇO!

– OLHA O HOMEM DO DOCE! PIRULITO, BALINHA, "CHICRETE", ALGUDÃO DOCE...

Seus amigos não estavam lá. Eles devem ter se despedido antes. Ou talvez nem saibam que você está partindo. Partindo com um triste sorriso no rosto, sabendo que dali para frente seu futuro irá melhorar, mas que iria ser especialmente doloroso deixar tudo para trás e começar do zero. E aquilo despedaçava meu coração. 

– FOTO 3X4! FOTO 3X4! TIRE AQUI SUA FOTO 3X4! REVELAMOS NORA!

Eu só queria que você virasse a cabeça para o lado. Já tinha atravessado a catraca e arrumado um lugar perto da janela. Mas seus olhos ainda estavam baixos. Estudando provavelmente o email que imprimiu às pressas com as instruções do novo trabalho.

– PASSE! PASSE! OLHO PASSE!
– ESTRALINHO! ESTRALINHO! OLHA O ESTRALINHO!

"Olha. Olha. Olha para mim." Minha mente gritava enquanto meus lábios se espremiam apaticamente. O motorista já dava ré. Era a última chance. Só precisava de um instante para você perceber que eu estava ali, como prometi, apoiando-a em todos os momentos. Estando ali - mesmo que atrasado - para mostrar o quando me importava você. 

– CDS! DVDS! TUDO DUBOM E DUMELHOR!

Seus olhos subiram rapidamente para a multidão que se dividia em filas infinitas. Nossos olhares se encontraram. Você abriu um tímido sorriso de lado. Uma lágrima solitária desceu pela sua pele rubra, mas você logo a expulso, tentando dissimular seus verdadeiros sentimentos. 

– PIPOCA! VAI PASSANDO O CARRINHO DA PIPOCA!
– OLHO PASTEL! OLHO PASTEL!

"Eu lhe amo" Pronunciei vagarosamente a frase, para que pudesse ler meus lábios. Você piscou ligeiramente os olhos úmidos, provavelmente impedindo mais lágrimas de descerem.

– BRIGADEIRO UM REAL!

No momento que ia me responder, um ambulante passou a minha frente, escondendo por segundos sua face. Segundos estes que bastou para o motorista sair da baia e você sumir para a sua nova vida.

– CHINELAS! SAPATILHAS! TÊNIS! TUDO PELO MENÓ PREÇO!
– LIVROS USADOS! VENDO E COMPRO LIVROS USADOS! HISTÓRIAS DE AMOR, AVENTURAS, DESVENTURAS...

"Eu lhe amo" A frase ecoou em minha mente. Sua resposta não chegou. Nunca chegaria. Mas, onde estivesse, eu tinha certeza que ainda escutava o grito do vendedor de pastel. 
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Fim de tarde


Existem vários temas que poderíamos falar. Poderíamos conversar sobre a beleza do sol e da lua. O céu em um misto de noite e dia. Poderíamos falar sobre os casais de mãos dadas que passam agora na minha frente desfilando pela rua. Nunca senti tanto ciúmes do amor. Poderíamos falar sobre o cigarro acesso esquecido entre meus dedos. Um dia eu o detestei, falei para mim mesma que não seria uma dessas (mas não deu certo).

Mas hoje não. Não. Eu estou pensando em outra coisa. Precisamente no prato com a torta ainda pela metade a minha frente. Nem sei o que me fez sentar na mesinha do bistrô e pedir a droga dessa torta. As primeiras garfadas desceram com o sabor doce dos velhos tempos, mas se transformaram logo nas azedas memórias. 

O glacê tinha sido impecavelmente arrumado, fazendo aquelas curvas caprichadas que nos intrigavam tanto. As camadas douradas mesclavam-se com o creme rosa de sabor agradável. Era a sobremesa favorita dos velhos tempos.

Eu não derramei lágrimas, companheiros, não chorei com saudades do passado. Eu já tinha deixado de ser a mulher que chorava pelo passado. Inúmeras lágrimas já foram arrancadas de meus olhos, mas não mais. Não agora. Não tão tarde. Eu tinha deixado aquele eu para trás. 

Mas por que, alguém me responda, por que aquela maldita torta se tornava azeda em meu paladar? Por que eu não conseguia desligar o passado e fazê-lo parar de influenciar quem eu era? 

Mesmo os momentos bons agora pareciam não ter mais sentido. Eles ficaram lá atrás e agora a terrível sensação de que todos tinham passado me assolava. Eu estava vazia. Vazia e fazendo o que eu não deveria. Agora estou em um bistrô matando minha dieta com algo que não irei aproveitar e soltando baforadas para o céu de fim de tarde.

De quem era a culpa de tudo aquilo? Do passado que ficou em seu lugar ou minha, que achava que tinha conseguido seguir em frente, mas está agora em uma mesinha redonda - sozinha - invejando o amor de quem passava na rua.

De quem era a culpa? Se o conto de fada durou apenas os primeiros capítulos e o felizes-para-sempre se tornou novamente um conto da carochinha? E eu ainda penso e repenso no que poderia ter acontecido para não termos acabado daquele jeito. Desse jeito.

Abandonei de vez o doce. Bebi em goles longos o mocaccino gelado e larguei uns trocados sobre a mesa. Já estava tarde e era hora de voltar para casa. Já era tarde. Era hora.

Abaixei a cabeça e segui meu caminho junto com as lembranças. 
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Já faz algum tempo



Já faz algum tempo. Parece que tudo foi apenas um sonho distante. Será que se lembra do mesmo que eu?

Nós crescemos. Não somos mais tão ingênuos quanto um dia fomos. Nossas vidas seguiram seus rumos e nós fomos levados por elas, um passo de cada vez, mesmo que às vezes tivesse parecido que tinha sido aos tropeços. 

Será que hoje ainda gostamos das mesmas músicas? Será que ainda rimos das mesmas piadas sem graça? Será que passamos a nos importar com o que não nos importava? Acho que tudo isso faz parte de crescer e deixar as coisas seguirem seu fluxo.

Relembrando tudo, os dias parecem que voaram, como se cada segundo tivesse fugido de nossas mãos, sem nem ao menos percebermos, e agora é tarde demais para voltar aos velhos e bons tempos que ficaram para trás.

Mas e daí? 

Não podemos mais voltar pelo mesmo caminho e viver a vida que deixamos para trás, mas ainda existe o mistério que nos espera a cada esquina.

Compensa olhar para trás e apenas sofrer com o tempo que ficou? E daí se já não gostamos mais das mesmas músicas, ou se não rimos mais das mesmas piadas? Não valeu a pena conhecer novas melodias e rir com o que desconhecíamos?

E quando você olha para trás, as lições que aprendemos no passado não lhe fazem pensar no presente? Como se cada passo, cada sorriso, cada lagrima, apenas reafirmasse o que é hoje?

Já faz algum tempo. Tudo parece um sonho distante e o futuro se torna o desejo pelo novo. Então vire-se para a frente. Me dê a mão. Vamos seguir o caminho. Recordando o passado, aproveitando o presente e nos tornando cada vez melhores para o futuro.
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Empinando Pipas

Pensando em algumas metáforas e ouvindo trilhas sonoras, veio-me a mente que nossos sonhos são como pipas. Já percebeu isso?

Quando eu era pequena, os meninos da rua onde eu morava faziam suas próprias pipas, a maioria daquele delicado papel seda e sempre dando um trabalhão. Não tinha coisa melhor do que fazê-la voar, acredite. O céu ficava lindo com todas aquelas pipas de várias cores e tamanhos nadando pelo azul infinito.

Os meninos esperavam pelo vento perfeito e depois as jogavam para cima e as deixavam serem embaladas. Os melhores sabiam que hora deveriam soltar mais a linha ou enrolar novamente o carretel para não perder a pipa.

Era muito frustrante quando uma prendia em uma antena, ou a linha cortava por causa de outra pipa, ou caia na casa do vizinho... Se a pipa ainda tivesse inteira, eles poderiam ir atrás dela (subir em árvores, pedir para os vizinhos devolverem, correr pelo descampado atrás da pipa), mas se tivesse estragado ou alguém pego, a solução era fazer uma nova.

E é assim que funciona os sonhos: você tem que idealizá-lo e depois trabalhar em sua estrutura até seu formato ficar perfeito, tão perfeito que seja possível de uma coisa tão frágil flutuar contra o vento. Depois se espera o melhor momento para fazê-lo flutuar e ser carregado pelo vento - livre, mas não sem um rumo - sempre guiando-o e fazendo subir ou descer de acordo com a necessidade. 

Ao fim, se alcançará a felicidade de ver que ele deu certo. Mas também pode ser que ele enganche em algum lugar e você tenha que achar um jeito de soltá-lo, ou que o sonho de outra pessoa tenha feito o seu  se soltar e voar para longe, ou que ele caiu na casa de um vizinho que pode ou não querer devolvê-lo. Mas isso depende também de quem soube ou não guiá-lo pelo melhor caminho. 

Depende de você.

Então, vamos empinar uma pipa?

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A Srta. K - Carta 2

(Resposta à carta da Srta K)

Estimada Srta K,

Adoraria conhecer esses pacientes que a senhorita parece tanto gostar. Alegra-me saber que está tudo bem e que finalmente achou algo que lhe animasse a continuar no convento. Espero que a Madre Superior esteja mais tolerante com relação a senhorita e que você também não esteja se comportando tão mal quanto no início (mesmo eu sabendo que boa parte de seu "mau comportamento" fosse culpa minha - e hoje eu devo me desculpar).

Por mais que fique feliz pela senhorita estar gostando do trabalho, preocupa-me não ter tanto tempo nem ao menos para entrar em contato com sua família. Espero que sua situação melhore logo e que possa encontrá-los em breve e que tenha mais tempo para a senhorita (as irmãs não tem muito isso em um convento, não é mesmo?).

Quero muito lhe encontrar, mas acho que não será possível tão cedo. Estou de mudanças para uma casa no campo, um lugar lindo e um tanto quanto solitário. Morarei apenas com uma criada, de modo que deve demorar um pouco para arrumar todas as coisas. Porém, assim que eu estiver instalada, lhe convidarei para conhecer o lugar ou arrumarei tempo para visitar a cidade e lhe ver.

Peço-lhe para me deixar sempre informada e para que tome cuidado com nossas cartas (não quero lhe causar mais problemas quanto no passado). 

Por enquanto essas são as únicas notícias que posso lhe dar, mas em breve terei muitas coisas novas a lhe contar.

Com carinho,

Sra F
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A Srta. K - Carta 1

Cara Srta. K,

Devo me desculpar por demorar a responder sua carta, mas estes últimos meses foram muito atribulados e não tive como parar para fazer qualquer coisa. Não sei se a Srta. sabe, mas o Sr. F faleceu há quase um mês. A verdade é que meu luto começou bem antes de sua morte de fato, meses antes, quando aquela doença começou a assolar minha vida. E se arrasta dolorosamente até agora, mas me obriguei a lhe responder para o meu silêncio não lhe preocupar mais.
Há um mês tive que sobreviver àquele tão doloroso velório. As lágrimas que derramei naquele dia são as mesmas que derramo hoje. Não deveria mais chorar, não é mesmo? Infelizmente não consigo me esquecer, principalmente quando me deparo com a casa toda vazia. Tive que despedir todos os empregados, tudo me lembrava ele.
A senhorita deve se lembrar o quanto eu odiava a ideia de me casar, ainda mais com um desconhecido e me mudar para uma cidade distante daquela que cresci, onde todos que eu amava viviam. Talvez deva estar se indagando se eu não estou um tanto quanto feliz com a minha liberdade tão esperada e um pouco repentina, mas não estou. De fato não estou.
Tinha pensado muito a respeito disso durante o casamento inteiro. Como eu queria voltar a ser livre e seguir alguma vez o meu coração, mas depois de anos de casada, aquilo fugiu à minha mente e minha relação com meu esposo se atenuou a chegar, não digo a amor, mas a amizade. 
Ele sofreu e morreu como meu amigo. Acho que deve ter padecido ainda mais por causa da falta daquela paixão ardente dos casais, ou nossa falta de filhos. Culpo-me até hoje por não poder tê-lo dado uma criança, aquilo que ele tanto queria...

Mas, voltando àquilo que me fez lhe responder, fico feliz por saber sobre seu trabalho no hospital e gostaria muito de ter mais notícias a seu respeito. Como andam todos? Seus irmãos e sua mãe estão bem? 
Espero que esteja gostando de seu trabalho. Lembro-me bem o quanto a senhorita gostava de cuidar dos outros e se importava com todos.
Precisamos nos encontrar em breve. Espero que meu período de luto passe e eu me sinta melhor para sair e me encontrar com o mundo.

Espero ansiosamente sua resposta e notícias de todos que tanto importam para mim.

Com carinho,

Sra. F

...
A próxima carta será postada aqui. Era para eu ter postado ontem, mas nem eu, nem a Cartaen tivemos ideias para a história. Então decidimos que seguiremos até ter um enredo mais definido.
Esperamos que acompanhem e gostem.
(Não deixem de seguir o blog de tia C)

Beijocas e até mais.

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Valentine's Day

Eu resolvi lhe mandar essa cartão por todos os motivos que você já deve saber tão bem...
Quando nos conhecemos, eu simplesmente não conseguia mais parar de pensar em você. Não era como os outros, não, você era diferente. Seu sorriso me fazia continuar cada dia mais. Sua sabedoria e força de vontade me faziam não desistir nunca. Por apenas desejar lhe encontrar mais uma vez, eu continuava trabalhando duro e dando o melhor de mim.
Por mais que eu saiba que você não existe no mundo real - mesmo sendo tão real para mim, não consigo não me sentir bem quando estou pensando em você.
Por isso e muito mais...

Happy Valentine's Day Arxi ❤️


A. S. Victorian
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A Professora



Descendo a rua me deparei com a mesma figura de todas as manhãs. Vinha calma como sempre, os fones nas orelhas, um sorriso sublime e constante nos lábios. Trazia um livro de Literatura sob o braço e a pasta de aula na mão. Era professora na escolinha algumas quadras a baixo.

As pessoas que passassem e vissem seu olhar preso ao chão poderiam até pensar que era insegura, mas aquilo não era verdade. Apenas não fixava os olhos nas coisas, gostava de deixar sua mente livre para voar.

Seu rosto redondo de bochechas rosadas aparentava ser muito mais novo do que realmente era. Estava alcançando os vinte e seis anos, mas parecia ter acabado de chegar os vinte. Não era a mais bonita, mas também não era feia. Sua beleza tinha um ar infantil.

Examinando aquela figura com um pouco mais de cuidado se notava coisas singelas que construíam ainda mais aquela figura: sua roupa bem passada exprimia cuidado, seus cabelos bem-arrumados só intensificavam aquele zelo. Não era casada pelo que eu saiba, e, mesmo que tivesse alguns rapazes interessados, também não namorava.

Gostava de se arrumar para si mesma, não para atrair olhares ou arrumar um esposo. Pelo pouco que a conhecia, parecia feliz até de mais com a sua aparente solidão.

Tinha se mudado há três meses, morava sozinha em um apartamento pequeno no subúrbio. Chegava em casa cedo. Passava o dia lendo, estudando e escrevendo.

– Bom dia, senhora A. – Cumprimentei quando ela estava mais próxima.

– Ah! Bom dia, Doutor D. – Seu sorriso se iluminou ao me ver.

 Passamos reto. Depois de um dia de trabalho, eu tinha certeza que ela iria se sentar em uma poltrona confortável, beber uma xícara de chá e ler um bom livro. 

Ao final do dia, eu iria chegar em casa, entregar-me a realidade e beber sozinho.
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Querida sra C

Querida sra C

Essa carta é tanto uma resposta para o que andamos conversando ultimamente quanto para a sua carta destinada ao sr A (que sim, eu li já que você falou de mim). 
Devo primeiro comentar sobre como fiquei feliz quando vi que escreveu uma carta a ele, é sempre bom quando nossas amigas se entendem com nossos homens. Só escutei as músicas indicadas porque ele aproveitou um dia que estavamos juntos para me colocar a par de seu gosto musical (que eu conhecia por alto).
Não acredito que você seja estranha. Estamos passando pelo mesmo problema e acho que isso é o processo evolutivo das relações. Claro que talvez não a nosso nível, mas todas as pessoas buscam coisas novas. 
Muitas vezes nos sentimos mal quando estamos com alguém, mas acho que a solução é ignorar ou se entregar ao nosso mais profundo ser. 
Estou com saudades de você, mesmo não estando tão longe. Precisamos nos ver logo. 
Com afeto,
Nane

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Bernardo


A chuva tinha engrossado. Foi só o tempo que Amélia levou para sair da sala e correr até a ponta do prédio. Ela tinha esquecido o guarda-chuva no carro de seu pai e estava atrasada para a sua aula que, por azar, era no prédio central da velha Universidade Nacional.
O único jeito era colocar a pasta na cabeça e correr na chuva sem se importar se seus fios negros alisados estragariam ou não. Era um pouco distante um prédio do outro e o caminho empoçado e as pessoas que vinham na direção contrária atrapalhavam ainda mais o percurso e a correria.
Ela tentava chegar o mais rápido possível, mas ainda faltava muito para poder se abrigar. Seu cabelo e suas roupas estavam encharcadas. Sua bolsa pingava.
De repente, logo depois de atravessar a tumultuada faixa de pedestre, as gotas pararam. Amélia subiu os olhos verdes para o céu e se surpreendeu com o guarda-chuva preto que cobrira sua cabeça.
Você vai pegar um resfriado se continuar andando na chuva assim. – A voz sorridente a fez se virar.
Eu esqueci a sombrinha. – Ela sorriu para o rapaz. Estudou os olhos e cabelos castanhos dele. Passou o olhar pela barba e o queixo forte. Não pode deixar de ficar vermelha. – Bernardo, o que está fazendo aqui?
Eu estava passando e eu vi o seu lindo cabelo molhando. Pensei que talvez precisasse de um guarda-chuva.
Obrigada. – Seus olhos faiscavam de animação.
A conversa morreu. Não tinham o que falar, não queriam falar nada. Estavam aproveitando aquele instante para se observarem.
Os dois esqueceram o que iam fazer. Ela deixou de lado a aula que estava indo.
O olhar de ambos era alegre, quente e convidativo. Sentiam-se bem um com o outro, não podiam negar. Amélia estava nervosa, não era para encontrar ele. Não enquanto estava desacompanhada de seus amigos e não conseguia esconder as bochechas ardendo. E a chuva não ajudava nada, só fazia os dois ficarem ainda mais próximos, espremendo-se embaixo do guarda-chuva.
O sorriso de ambos desapareceram. Os olhos brilhavam de vergonha e uma pontinha de desejo, que Amélia queria esconder com todas as forças.
Ele foi o primeiro a se aproximar. Ela não recuou. Sentiu os lábios dele nos dela.
Estavam imóveis sentindo aquele toque. Ignorando a chuva. Ignorando as pessoas que passavam. Ignorando o atraso. Apenas o toque importava.
Eu… – Amélia afastou os lábios e encarou novamente o rapaz. Ele riu das bochechas rubras da garota. Ela sabia que sua situação era cômica: encharcada, bochechas vermelhas, pupilas dilatadas, a boca semiaberta pedindo para que ele se aproximasse novamente e ao mesmo tempo que fosse embora. – Eu preciso ir para a minha aula.
Se importaria se eu te acompanhasse? – Andaram até o abrigo mais próximo.
Amélia sacudiu a bolsa e passou a mão pelo cabelo molhado. Droga.
Acho melhor não. Você deve estar atrasado para a sua aula também…
Amélia… – Sussurrou.
Obrigada Bernardo! – Sorriu e se apressou a seguir seu caminho para a sala. Parou. Pensou no que tinha acabado de acontecer. Olhou de esguelha para o rapaz que continuava parado lá com uma expressão boba e confusa. Deu meia volta e, mais rápido do que Bernardo conseguiu calcular, voltou até o rapaz e pregou seus lábios novamente nos dele.
Até mais. – Sorriu novamente e saiu correndo para a aula.
Até mais. – Ele riu apaixonadamente.

~~~
Tanto amor, não é mesmo? *---* Escrevi esse pensando na minha amiga Brendulica (kkkk, viu Brenda, eu prevejo as coisas...). Só demorou um pouco para eu digitar e arrumar rsrs.
O que acharam? Deixem um comentário =3

Bjs e até
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Correndo



Os passos eram rápidos e espaçados. O rapaz não estava atrasado para nada, mas gostava de andar acelerado. Todos os dias eram daquela mesma forma. Por mais que não tivesse nada para fazer, andava correndo.
Já era costume e parecia que não só dele. As outras pessoas ao seu redor também corriam – provavelmente elas tinham motivos, talvez não, talvez eram apenas levadas pela correnteza de gente.
As ruas estavam cheias como de costume. Os sapatos de salto alto produziam o tão costumeiro toc-toc, mais rápidos do que o tic-tac do relógio. Os outros faziam um curto coaxar de borracha. Saias esvoaçantes. Ternos suados. Crianças sendo puxadas pelas mãe. Não era nem meio-dia ainda.
O homem estava prestes a atravessar a rua quando colidiu com uma moça vindo na direção contrária. Ela caminhava, se possível, ainda mais rápido do que ele.
Em meio a papeis voando e livros e pastas caídos, sorrisos e olhares constrangidos. As pessoas que viam logo atrás desviaram do casal parado no meio da rua.
Ele a ajudou a catar tudo. Encararam-se por alguns segundos. Seus sorrisos eram de cumplicidade. Aquele estranho momento que ambos atrapalham tantas pessoas passando por causa de um acidente bobo.
Ela sorriu agradecida, pegou suas coisas e se foi.
Ele arrumou a gola polo e continuou seu caminho.
Se tivessem se encarado mais um pouco, ambos teriam notado a beleza na face do outro. Ela de logos cabelos negros, soltos sobre os ombros. Ele com os cabelos castanhos um tanto quanto desgrenhados pelo vento. Ela de olhos sorridentes e ele de face naturalmente alegre.
Mas não ficaram se encarando.
Apenas continuaram seus passos apressados.
Como se nada valesse tanto quanto a correria da vida.
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Mãos


Era final de tarde bem naquela hora que costumávamos sair da escola e seguir para casa na velocidade exata de não chegar atrasados e mesmo assim ver o pôr do sol. Mel estava inquieta aquela tarde. Colocou as mãos sobre o corrimão da ponte e nos deixou lá. Não olhava o pôr do sol, seus olhos miravam o lado da escola, estavam esperando alguém.
Um garoto da mesma idade de Mel se aproximou. Ela finalmente nos retirou de cima da madeira áspera e nos uniu timidamente a frente do corpo.
Eu demorei? – Ele indagou envergonhado. Mel negou com a cabeça. De baixo onde estávamos dava para ver as bochechas coradas de ambos.
Eles ficaram se encarando por muito tempo. Tanto tempo que começamos a suar e a nos imprensar. Mel estava nervosa com alguma coisa e o garoto também parecia. Ele chegou mais perto dela e sorriu um sorriso infantil e constrangido.
Eu gosto do seu cabelo sob a luz do pôr do sol. – Ele arrumou a franja dela atrás da orelha. Ela riu dengosamente. Levou as mãos ao cabelo, mas antes que pudéssemos arrumar os fios, as mãos do garoto nos alcançaram e puxaram para baixo.
Ele aproximou o corpo do dela. Suas mão também estavam suadas, mas sua pele macia e aveludada compensou qualquer coisa. Aquele toque foi o necessário para a garota deixar a timidez de lado e também se aproximar dele.
As mãos se soltaram, os braços enlaçaram a cintura do outro e nós novamente nos encontramos, agora nas costas do garoto. E por fim, não era apenas nós que estávamos coladas. Seus lábios também.


Já devem ter percebido que é mais um do livro "642 Things to write about". Esse foi um tema engraçado: Escreva uma cena de amor no ponto de vista de suas mãos. Teria inúmeras cenas que eu podia descrever desse jeito, mas essa foi fofinha e curtinha (e eu gostei...).
O que acharam? Deixem comentários com a opinião de vocês =) 
Beijos e até


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Eu estou lhe contando essa história porque você é a única pessoa que não irá me julgar...


...
Há algum tempo que preciso contar isso a alguém. Você sempre se perguntou porque meus sorrisos eram tão raros, porque eu não fazia amigos ou detestava que entrassem na minha casa.
Para tudo existe uma explicação. Existe uma explicação para mim também. E nessa carta eu quero finalmente me abrir com alguém. Tudo o que aconteceu em minha vida foi uma imensa confusão. Tudo o que aconteceu... - muitas coisas aconteceram - ... nunca ao menos me preocuparam e só agora eu parei para pensar em todos meus erros e todas as coisas ruins que um dia fiz.
Nesse momento a televisão está ligada e muda, mas mesmo assim eu sei que ela está falando sobre mim. E como sei? Não parou de passar reportagens sobre mim nas últimas semanas, essa não seria diferente. Muitas perguntam: quem é ela? Do que vive? Vilã ou heroína? Anos? E outras muitas perguntas que não me interessam nenhum pouco.
Sombra, guerreira mascarada... Outros tantos nomes que mal consigo recordar. O que eu sou? Nenhum deles. Nunca fui heroína. As pessoas que um dia matei ou deixei de matar, não dependiam de mim. Era meu trabalho. Me contratavam. Me pagavam. Eu matava.
Pode parecer estranho, fácil, frio, mas era assim mesmo. Sem sentimentos, lágrimas, palavras. Apenas um trabalho perfeitamente executado todas as vezes.
E por que então eu estou lhe escrevendo essa carta? Carlos... Eu sempre fui do jeito que nos conhecemos. Fria, calada, séria, patética. Nunca me importei com a minha vida. Mas eu presava pela vida (pode parecer um pouco incoerente), pela vida de minha irmã. Somente a dela. Todos os dias desde que eu tinha cinco anos, desde que meus pais foram mortos pelo meu próprio tutor, desde o dia que entrei nessa maldita empresa... Todos os dias só pensei nela. E agora existe uma outra coisa em minha mente. Você.
E por isso estou lhe escrevendo essa carta. Desde o instante que você forçou amizade eu comecei a pensar. Como eu queria ser uma garota normal, como eu não queria que levar o fardo de tantos assassinatos, como eu queria ser livre por pelo menos um dia.
Sabe... Nunca vemos os problemas de nossa vida até que algo diferente aconteça e mude o cotidiano. E você foi esse algo diferente. Foi o algo que eu precisei para abrir os olhos.
Enquanto todas as noites eu derramava o sangue de alguém, uma família era desfeita e eu estava presando apenas a minha. Por mais que muitos do que eu matei fossem até piores do que eu, não era eu que deveria decidir por suas vidas. Não era a minha missão.
É tarde de mais não é? Para voltar atrás?
Essa noite será a minha última missão. Uma missão para realizar os meus interesses e dar finalmente um fim a tudo isso.
Provavelmente quando estiver lendo essa carta será tarde demais, mas espero que eu tenha sucesso e que possa livrar o mundo dessa empresa (de uma vez por todas). E só assim eu poderei pedir perdão a todos que machuquei, a todos que não mereciam o que fiz.
Peço perdão a você e a Melody também. E lhe imploro que cuide dela. Ela é tudo para mim.
Quero que se cuide também. Prometo fazer dessa cidade um lugar mais seguro. Pelo menos uma vez fazer uma coisa certa.
E esta é a hora que me despeço.
Continue subindo na casinha da árvore no meio do nada e leve a Mel algumas vezes também. Obrigada por tudo.
Helga 

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Mais um do livro "642 THINGS TO WRITE ABOUT". Era para escrever uma carta começando com "Eu estou lhe contando essa história porque você é a única pessoa que não irá me julgar... " (eu sei que não foi beeeeem uma história... mas é para usar a criatividade, então me deixem -.-)
Meus personagens são sempre uns amores, não é? O que acharam? Deixem um comentário. Beijos e até.
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Praia

Texto aleatório. Eu queria treinar um pouco a minha narração. Espero que gostem (a história não tem muita "lógica", porque eu não queria entrar em detalhes).
Imagem: We heart it.



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